Contato visual no autismo: ensinar ou compreender a função do olhar?

O contato visual costuma ocupar um lugar importante nas discussões sobre desenvolvimento infantil, autismo e intervenção comportamental. Durante muitos anos, programas de intervenção incluíram objetivos específicos para que crianças autistas aprendessem a “olhar para o adulto”, responder ao próprio nome ou direcionar os olhos durante situações de ensino.

Nos últimos anos, entretanto, essa prática passou a ser questionada do ponto de vista ético, principalmente diante dos relatos de pessoas autistas que descrevem desconforto durante interações olho no olho.

Mas talvez a pergunta precise ser formulada de outra maneira.

Em vez de perguntar simplesmente “devemos ensinar contato visual?”, Francesca degli Espinosa propõe uma reflexão diferente: devemos compreender como o comportamento de olhar se desenvolve e investigar se a interação social funciona como estímulo discriminativo e reforçador para aquela criança.

Essa mudança de perspectiva é fundamental porque desloca o foco de uma resposta mecânica — “olhe para mim” — para a qualidade e a função da interação social.


Contato visual não é exatamente um comportamento

Uma das principais contribuições conceituais do artigo é a diferenciação entre contato visual e comportamento de olhar.

Segundo a autora, o contato visual não seria o comportamento propriamente dito, mas o produto do comportamento de olhar para o rosto de outra pessoa até que seus olhos se encontrem.

Nesse sentido, aquilo que pode ser estabelecido ou modificado é o comportamento de olhar.

Ao olhar para o rosto de alguém, a criança entra em contato com diferentes informações sociais:

  • expressões faciais;
  • movimentos dos olhos;
  • sorriso;
  • direção do olhar;
  • fala;
  • gestos;
  • mudanças emocionais;
  • pistas sobre aquilo que outra pessoa está observando.

Esses estímulos podem exercer funções discriminativas e reforçadoras e participar de cadeias comportamentais mais amplas.

Isso significa que olhar para uma pessoa não deveria ser compreendido apenas como uma regra social do tipo “é educado olhar nos olhos”.

O olhar pode ser uma importante via de acesso às informações sociais presentes no ambiente.


Olhar porque foi solicitado é diferente de olhar porque a interação é interessante

O artigo apresenta dois exemplos muito interessantes.

No primeiro, uma criança recebe a instrução “olhe para mim” e, depois de olhar, recebe um estímulo externo, como alimento.

Com repetidas tentativas, ela aprende uma sequência:

adulto pede → criança olha → criança recebe algo.

No segundo exemplo, entretanto, o olhar acontece durante uma brincadeira social envolvendo interação, expectativa, sorriso e resposta do adulto.

A topografia pode parecer a mesma — a criança olha para o rosto da professora — mas a função do comportamento é diferente.

No primeiro caso, o olhar ocorre sob controle instrucional e está associado a um reforçador externo à interação.

No segundo, o olhar faz parte da própria brincadeira social e é mantido por consequências sociais produzidas pela interação.
Essa diferença é essencial para pensarmos em intervenção.

A criança pode aprender perfeitamente a “olhar quando alguém manda” sem necessariamente desenvolver maior interesse ou compreensão da interação social.


O problema talvez não seja o objetivo, mas a forma como ele é ensinado

Grande parte da controvérsia sobre contato visual na ABA parece estar relacionada aos procedimentos historicamente utilizados.

Segundo o artigo, muitos estudos recorreram a estímulos diretos — como prompts verbais ou gestuais — e a reforçadores não sociais, incluindo alimentos, fichas, brinquedos e vídeos.

Isso pode produzir uma resposta de olhar bastante específica:

a criança aprende a olhar porque existe uma instrução e porque receberá algo depois.

Mas isso não necessariamente significa que o rosto, os olhos ou a própria interação social tenham adquirido valor reforçador.

A autora defende que essa distinção precisa ser considerada antes de simplesmente concluir que “ensinar contato visual” é adequado ou inadequado.


Por que olhar para o rosto é importante no desenvolvimento?

O olhar para rostos aparece muito precocemente no desenvolvimento humano.

O artigo descreve que recém-nascidos apresentam orientação para estímulos sociais, incluindo rostos e olhos, e que, nos primeiros meses de vida, começam também a acompanhar a direção do olhar de outras pessoas.

Essas experiências contribuem para o desenvolvimento de habilidades sociais mais complexas.

Ao observar o rosto de um cuidador, por exemplo, um bebê pode começar a aprender:

“Para onde essa pessoa está olhando?”

“O que chamou sua atenção?”

“Como ela reagiu ao que aconteceu?”

“O que significa essa expressão?”

Com o desenvolvimento, o olhar passa a ser combinado com outras respostas, como apontar, mostrar objetos e alternar a atenção entre uma pessoa e determinado estímulo.

Essas habilidades fazem parte do desenvolvimento da atenção conjunta.


O que é atenção conjunta?

A atenção conjunta acontece quando duas pessoas compartilham a atenção em relação a alguma coisa.

Imagine uma criança vendo um cachorro passar.

Ela olha para o cachorro.

Depois olha para a mãe.

Aponta.

A mãe acompanha seu gesto e diz:

“Olha o cachorro!”

Nesse pequeno episódio existem várias habilidades acontecendo simultaneamente.

A criança percebe o objeto, percebe a outra pessoa, direciona a atenção do adulto e acompanha sua resposta.

Esse tipo de interação cria inúmeras oportunidades para aprendizagem da linguagem, comunicação e comportamento social.

Por isso, no artigo, o comportamento de olhar é discutido não como uma habilidade isolada, mas como parte de uma cadeia muito maior de aprendizagem social.


E no autismo?

Segundo o artigo, diferenças no desenvolvimento do engajamento visual social podem aparecer muito precocemente em crianças posteriormente diagnosticadas com autismo.

A autora menciona estudos longitudinais com rastreamento ocular mostrando diferenças no padrão de orientação para estímulos sociais já nos primeiros meses de vida.

Isso não significa que a criança “não queira pessoas”.

Também não significa que devemos obrigá-la a sustentar contato visual.

A questão clínica é mais complexa.

Precisamos investigar se os estímulos sociais — expressões, gestos, fala, brincadeiras e respostas das outras pessoas — estão adquirindo funções importantes para sua aprendizagem.


Forçar contato visual não é o mesmo que promover engajamento social

Essa diferença precisa ser muito clara.

Defender a importância do olhar social não significa defender coerção.

Adultos autistas relatam, em alguns estudos citados no artigo, que o contato olho no olho pode ser desconfortável.

Além disso, a própria autora reconhece que o contato visual pode adquirir diferentes funções de acordo com a história de aprendizagem e o contexto.

Ele pode estar associado a experiências positivas.

Mas também pode se tornar aversivo.

Quando olhar para alguém historicamente significa receber cobrança, repreensão, correção ou demandas constantes, evitar o contato visual pode produzir alívio.

Nesse caso, a própria interação pode adquirir propriedades aversivas.

Por isso, insistir mecanicamente:

“Olha para mim.”

“Olha no meu olho.”

“Você não está prestando atenção.”

pode ser muito diferente de criar situações nas quais olhar para o adulto seja naturalmente útil, informativo e agradável.


A interação social precisa ganhar significado

Esse talvez seja o ponto central do artigo.

Em crianças pequenas, a autora defende que é importante trabalhar para que os estímulos sociais possam adquirir funções discriminativas e reforçadoras.

Isso pode acontecer por meio de interações naturais:

brincadeiras;

músicas;

jogos sociais;

expressões faciais;

pausas de expectativa;

turnos comunicativos;

atenção compartilhada;

imitação;

comentários;

respostas contingentes da outra pessoa.

O objetivo deixa de ser:

“Faça a criança olhar.”

E passa a ser:

“Construa interações nas quais olhar para a outra pessoa tenha significado.”


O olhar como oportunidade de aprendizagem

Segundo a análise apresentada no artigo, olhar para os olhos e para o rosto pode colocar a criança em contato com uma grande quantidade de informações sociais e oportunidades de aprendizagem.

A autora descreve o olhar social como potencialmente relacionado a habilidades posteriores, incluindo atenção conjunta e aspectos do desenvolvimento verbal.

Isso ajuda a compreender por que simplesmente retirar qualquer objetivo relacionado ao olhar, por princípio, também pode ser uma decisão precipitada.

A questão não deveria ser decidir previamente:

“Contato visual sempre deve ser ensinado.”

nem:

“Contato visual nunca deve ser trabalhado.”

Precisamos observar qual é a necessidade daquela criança, qual a função do comportamento e quais procedimentos estão sendo utilizados.


Intervenções naturalistas podem oferecer outro caminho

O documento também chama atenção para abordagens nas quais o olhar é construído dentro das próprias rotinas sociais.

Em modelos de intervenção naturalista, a interação, a brincadeira e as respostas sociais do adulto podem funcionar como consequências naturais.

Pausas estratégicas, expectativas e sequências de brincadeiras podem criar oportunidades para que a criança espontaneamente busque informações no rosto do outro.

Assim, o olhar passa a integrar uma cadeia funcional de interação, em vez de ser produzido apenas por uma ordem direta acompanhada de recompensa externa.


Então devemos ou não ensinar contato visual?

A resposta proposta pelo artigo é mais cuidadosa do que simplesmente “sim” ou “não”.

A autora conclui que a questão principal deveria ser se devemos buscar estabelecer a interação social como reforçadora para o comportamento de olhar nos olhos.

Ou seja, o objetivo não deveria ser produzir contato visual pela aparência do comportamento.

O foco deve estar nas variáveis que fazem aquele olhar ter significado dentro da relação social.

Essa reflexão modifica profundamente a prática.

Em vez de perguntar:

“Ele olha para mim?”

podemos perguntar:

“Ele busca informações no meu rosto?”

“Compartilha atenção comigo?”

“Percebe minhas expressões?”

“Olha para verificar minha reação?”

“Usa meu olhar como pista para compreender situações?”

“A interação comigo é interessante e reforçadora?”

Essas perguntas nos aproximam muito mais da função social do olhar.


Individualização e respeito continuam sendo essenciais

Nenhuma habilidade social deve ser trabalhada apenas porque determinado comportamento é considerado socialmente esperado.

Toda intervenção precisa considerar a criança de maneira individualizada.

Isso inclui:

  • sua idade;
  • repertório atual;
  • perfil de comunicação;
  • características sensoriais;
  • desenvolvimento social;
  • possíveis sinais de desconforto;
  • história de aprendizagem;
  • contexto familiar;
  • funcionalidade daquela habilidade para sua vida.

Um comportamento pode ser importante para uma criança e não constituir prioridade para outra.

Da mesma maneira, a forma de intervenção precisa respeitar sinais de recusa, desconforto e sobrecarga.


Mais do que ensinar a olhar, precisamos ensinar a interagir

A principal reflexão que podemos extrair desse estudo é que não basta produzir a topografia de um comportamento.

Uma criança pode aprender a olhar para os olhos porque recebeu uma instrução.

Mas o desenvolvimento social envolve algo muito maior.

Envolve perceber o outro.

Buscar informações.

Compartilhar experiências.

Antecipar respostas.

Compreender expressões.

Responder à comunicação.

Iniciar interação.

Construir reciprocidade.

Por isso, quando falamos sobre contato visual no autismo, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Devemos ensinar a criança a olhar nos olhos?”

Mas:

“Como podemos construir interações nas quais olhar para o outro seja funcional, significativo, espontâneo e socialmente reforçador para essa criança?”

Essa mudança de perspectiva permite uma intervenção mais individualizada, funcional e sensível às necessidades reais do desenvolvimento infantil.

Luana Aguiar


Fonte principal de pesquisa

DEGLI ESPINOSA, Francesca. Eye Contact: To Teach or Not to Teach? That Is Not the Question. Perspectives on Behavior Science, 2025. DOI: 10.1007/s40614-025-00456-2.

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Nota: O artigo-base apresenta uma discussão conceitual apoiada em literatura comportamental e do desenvolvimento. A própria autora informa que não foram utilizados dados externos específicos para uma análise experimental, pois o trabalho propõe um quadro conceitual sobre o tema.